Equipamento Intelbrás (imagem gentilmente cedida)

 

, 6 Minutos – São Paulo
06/02/2020 – 19:33

NOTA: Conteúdo fornecido pela Acresce para o Portal 6 Minutos, e que serviu de base para esta matéria. Clique Aqui

O que descobrimos

  • O número de condomínios que vão adotar o controle virtual/eletrônico de acesso deve aumentar 30% em 2020
  • Estima-se que 4% dos condomínios residenciais de São Paulo já tenham portaria eletrônica
  • A principal vantagem desse modelo é a redução do custo do condomínio, já que os gastos com pessoal representam 60% do orçamento do prédio
  • Esse sistema não serve para todo tipo de edifício: funciona bem para prédios com até 40 apartamentos
  • Sindicalistas temem que as portarias eletrônicas aumentem o desemprego: 200 mil pessoas trabalham em portarias só em SP
Você chega a um prédiopara visitar um amigo e, em vez de encontrar um porteiro dentro da guarita envidraçada, se depara com um interfone turbinado, no qual digita o número do apartamento ou fala com uma portaria remota.

Essa cena está cada vez mais comum nas grandes cidades brasileiras. Em São Paulo, por exemplo, estima-se que 4% dos condomínios residenciais tenham portaria eletrônica.

Espera-se que esse mercado cresça como nunca neste ano. O número de condomínios que vão adotar o controle virtual/eletrônico de acesso deve aumentar 30% em 2020, percentual que deve se repetir em relação ao faturamento do setor, segundo a Abese (Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança).

Até agora, esse segmento evoluía 8% ao ano. Em 2019 se expandiu 10%. O faturamento das empresas de segurança eletrônica foi de R$ 7,17 bilhões no ano passado.

O motivo não é só a evolução da tecnologia, que agora oferece várias opções de acesso eletrônico para os condomínios: portaria remota (existe uma central em que fica uma pessoa, observando vários prédios por meio de câmeras, que libera – ou não – a entrada de pessoas ao prédio), biometria (leitura da palma da mão ou de digitais), reconhecimento facial, por senha ou por cartão magnético. Há sistemas que permitem gravar mensagens de áudio do visitante, inclusive imagens (vídeo ou foto) e liberar a entrada de visitantes pelo celular.

Economia

O que faz brilhar os olhos de quem mora em condomínio é a economia que a novidade gera. “As portarias eletrônicas chegam a reduzir pela metade o valor do condomínio”, diz Selma Migliori, presidente da Abese.

Os gastos com pessoal correspondem, em média, a 60% dos custos de um condomínio residencial, segundo Omar Anauate, diretor de condomínio da Aabic (Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios). Conforme a convenção trabalhista dos porteiros, é preciso ter no mínimo quatro porteiros em um prédio residencial que tenha portaria 24 horas, contando com os folguistas.

Todo esse pessoal é dispensado quando se implanta uma portaria eletrônica. É daí que vem a economia. Mas o custo de implantação, devido ao gasto com a rescisão de pessoal e a compra de todo o sistema, é alto.

“Para implantar todo sistema de segurança num prédio que não tinha nada, gastei R$ 70 mil, incluindo cercas eletrônicas, a portaria automatizada, tudo”, diz Inagê Costa, síndico profissional que cuida de seis edifícios.

Um deles, na Parada Inglesa, zona norte de São Paulo, conta com sistema de acesso automatizado. “Os custos da portaria, que eram de R$ 16 mil por mês, caíram para R$ 8 mil. Ou seja, em menos de nove meses o investimento se pagou”, diz Costa.

E as encomendas?

Além de toda parafernália eletrônica, é preciso cadastrar e treinar todos os moradores, os funcionários remanescentes e ter uma zeladoria competente e treinada. “É o zelador que receberá as correspondências que dependam das assinaturas de recebimento e também as encomendas de correio” diz Adonilson Franco, presidente da Acresce (Associação dos Condomínios Residenciais e Comerciais de São Paulo). Ele lembra que mesmo com o sistema automatizado, é preciso ter um funcionário no local, pelo menos durante o horário comercial.

Há também os armários inteligentes. Se parecem com aqueles armários de escola, com a diferença de que contam com fechadura eletrônica. O entregador abre a portinha por meio de aplicativo ou contactando uma central, após se identificar. Deposita a encomenda e ela é travada num compartimento. Só o destinatário pode abrir esse compartimento e retirar a encomenda.

Mudança de cultura

Para aprovar todas essas mudanças, lembra Franco, é necessário assembleia de condôminos com presença de no mínimo (depende da convenção do prédio) dois terços dos moradores e votos a favor da maioria (50% mais um).

“Aqui todo mundo tem que se virar. Gosto da portaria eletrônica. Morava em um prédio com portaria comum e era uma mordomia desgraçada”, diz a professora aposentada Eva Martinho do Valle, que se mudou para um edifício com sistema automatizado na Vila Olímpia, na zona sul de São Paulo.

Depois da implantação do sistema, o condomínio baixou de R$ 3.000 para R$ 2.100. A entrada é controlada por digital. Mas Eva usa também uma tag, uma espécie de cartão magnético. “Usei muito giz e minhas digitais estão meio apagadas”, explica. Ela diz que o novo sistema também exige mudança de cultura das pessoas. “Em vez de depender de empregados, aqui cada um tem sua parte a fazer.”

É preciso ressaltar que as portarias eletrônicas, afirmam os especialistas, não são indicadas para todos os prédios. Ela funciona melhor em edifícios com até 40 unidades, ou em torno disso. Mais que isso, a portaria eletrônica apresenta mais falhas que vantagens, dizem os especialistas.

“Em Moema, por exemplo, muitos prédios são baixos, por causa da rota de aviões e a proximidade do aeroporto de Congonhas. E como são um por andar, a taxa condominial é muito cara. Nessa região, a implantação do sistema automatizado é um sucesso porque diminuiu o condomínio, que era alto demais. Beirava, em média, R$ 4.000”, explica Omar Anauate, da Aabic.

Desemprego

Mas, além dos prós, há fatores negativos. O maior deles, possivelmente, é o desemprego que a novidade pode gerar. “Corremos risco de um desemprego em massa”, diz Paulo Ferreira, presidente do Sindficios (Sindicato dos Trabalhadores em Edifícios e Condomínios de São Paulo). Só na cidade de São Paulo, estima-se que 200 mil pessoas trabalham em portarias.

A Abese, ao contrário, afirma que os porteiros que forem substituídos por sistemas automatizados terão nova oportunidade de trabalho nas empresas de segurança. “Se aceitarem ser treinados novamente, eles podem trabalhar nas portarias remotas e terão mais chance de evoluir na carreira”, afirma a presidente Selma.

Já a Acresce tem uma estimativa mais modesta: a associação acredita que dois terços dos funcionários serão reaproveitados.

Chame o zelador

O sindicalista, entretanto, diz que há outros problemas também com o novo sistema. “E se alguém passar mal, como uma ambulância vai entrar no condomínio? E quando chega a perua da escola, quem recebe a criança? E se alguém fica preso no elevador? Ou cortarem a eletricidade? O prédio fica vulnerável”, afirma.

Para evitar esse percalço, diz Selma, da Abese, é preciso ter um bom gerador, além de no breaks, e garantir a energia em caso de cortes. Além disso, é bom lembrar, existe o zelador, que assumirá novas funções.

Idosos

Os mais velhos, ao que parece, são os moradores que mais sofrem com a mudança. “Minha mãe de 88 anos tem dificuldade para entrar no prédio. O leitor não reconhece a digital dela”, alega a corretora de seguros, Roseli Marques, que mora na Vila Romana, na zona oeste de São Paulo. “É raro o sistema funcionar de primeira. A biometria não lê direito”, reclama.

E houve casos em que o condomínio desistiu do sistema eletrônico e voltou para o tradicional? “Não conheço nenhum que tenha voltado para o tradicional. Sei de alguns que mudaram de empresa, para melhorar o serviço”, diz Anauate, da Aabic. “O certo é que toda tecnologia precisa ser adaptada. Mas o avanço é inevitável. As pessoas querem gastar menos”, afirma ele.