Hernán Siculer*

O coronavírus parece um pesadelo somente comparável com algumas joias da ficção literária. “A Peste,” do maravilhoso Albert Camus, ou talvez o “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago, são exemplos paradigmáticos.

O Covid 19 chegou sem avisar, como uma visita ingrata e de surpresa. Adoeceu o mundo e as economias globais, condenando o Planeta à incerteza e à angústia, confrontando-nos com o desespero da sensação de indefensão, com a vulnerabilidade e o desamparo.  De repente, em poucos dias, nossa vida cotidiana virou de ponta-cabeça. A aparente normalidade rotineira do nosso dia-a-dia se perde e se transforma radicalmente.  Vemo-nos obrigados a suspender ou reformular nossas atividades e nos isolamos. 

Mas qual seria o sentido de tal movimento? Se bem que o isolamento pode ser habitualmente associado a um ato individualista e de ruptura com o outro, parece importante destacar que é possível observar, também, outra face muito mais interessante e radicalmente oposta do confinamento. Neste caso, funciona também como um reforço dos laços solidários entre os seres humanos. Indica a consideração e o amor pelo outro. Ao mesmo tempo em que eu me preservo, estou pensando em preservar ao outro, que, às vezes, é mais vulnerável que eu.

Em lugar de ser um movimento rigorosamente individualista e egoísta, observamos que no contexto particular da pandemia parece significar, fundamentalmente, algo muito mais valioso que isso. Efetivamente, trata-se de uma saída ética e solidária que aponta a uma aposta coletiva.

O cuidado pelo outro substitui a indiferença. A lógica do amor, que é inclusivo (eu mais você), prevalece frente à exclusão do outro, eu ou você, que é considerado como um rival ou adversário. Esta armadilha, na qual tantas vezes embarcamos, faz parte da lógica voraz e competitiva que o mundo imediatista nos impõe.  

Exemplos solidários abundam. Os encontramos nos cartazes que aparecem nos condomínios onde vizinhos que estão fora dos supostos grupos de risco se oferecem para auxiliar seus semelhantes em condições desfavoráveis. Vimos o caso de um professor de educação física oferecendo aulas gratuitas da varanda da sua casa para moradores do prédio em frente, ou um cantor que fez um show, também desde sua varanda, para os outros condôminos. Os oferecimentos para compras de supermercado ou farmácia visando evitar a exposição de quem corre risco maior também aparecem – e por ai vai.

Mas, por outra parte, encontramos também a contrapartida disso, onde o que prima já não é a solidariedade, senão a intolerância e a incompreensão.  O egocentrismo do ser humano muitas vezes dificulta a aceitação e a compreensão dos diferentes pontos-de-vista, cada um considerando seus próprios princípios e valores mais importantes que os dos demais e, nesse sentido, a diferença funciona como obstáculo insuperável e insuportável. 

Talvez este seja o maior desafio a ser vencido: reconhecer as diferenças, mas, fundamentalmente, conviver e aceitá-las, admitindo que o olhar do outro agrega – e não dificulta. Talvez esta seja uma verdadeira oportunidade, numa situação limite, para se exercitar a democracia.

*Psicanalista argentino residente e atuando no Brasil

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